Roda de coco no sertão

–Tome cachaça, menina, que aqui é o sertão, não tem certo nem errado.

–Cachaça arde, mas tem suas vantagens – ele ri.

Toca coco e vira um gole, que a cachaça é ruim, mas a vida é boa. Vira um gole e vai para a roda, que o coco vai recomeçar. Continuar lendo “Roda de coco no sertão”

Macuca: quando o forró encontra o frevo

Quando o forró e o frevo se encontram e a gente não sabe mais qual é qual, mas sabe brincar e dançar. Fantasiados na quadrilha, pulando no pequeno salão do Cariri Olindense até o corpo ficar muito quente e o ar muito abafado. Aí a gente vai para rua, respira fundo… e volta para o ar quente e suado, e pula até não aguentar. E pausa, respira, e volta. Continuar lendo “Macuca: quando o forró encontra o frevo”

Tuíre Kayapó: “por que não se juntar para mudar isso?”

Essa mulher forte da foto, Tuíre Kayapó Mebēngôkrē, hoje é uma senhora, que continua firme em sua luta. Conheci-a na Aldeia Multiétnica e foi bonito ver como ela não perdia nenhuma oportunidade de falar sobre a importância da floresta. Se o tema era cultura, saúde ou educação, ela sempre conseguia nos mostrar como tudo era uma mesma luta.

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“Sou mulher, mas eu luto assim… um pouquinho”

Madalena Krahô_Diego Baravelli

“Eu sou mulher, mas eu luto assim… um pouquinho, né?”, diz Madalena Krahô em sua fala modesta. A conversa com a cacica, porém, vai revelando a força do trabalho da líder da aldeia Forno Velho, em Tocantins. Ela conta que conseguiu que construíssem uma ponte de concreto para melhorar o acesso ao território e uma escola de Ensino Médio na aldeia, pois o transporte até outra escola era ruim e perigoso.

“Hoje tem escola, rádio, motor para puxar água. A pessoa chega e me procura para as coisa, então eu tô ficando. A Funai, quando era boa, mandava dinheiro e eu fazia as compra. Não sei disso aqui – ela aponta para minhas anotações – mas as conta eu sei”. Ela ainda explica que, apesar do pouco estudo, aprendeu bastante: “de primeiro, eu não sei língua de vocês, mas fui na escola um pouquinho e um pouquinho eu aprendi. Mas dinheiro eu sei o tanto…” Continuar lendo ““Sou mulher, mas eu luto assim… um pouquinho””

Floripa: praias, trilhas, lagoas, dunas e vilas

 

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Forte e vista para o continente

 

Florianópolis tem prainhas escondidas entre morros verdes e grandes extensões de areia, céu e mar. Tem churros para vender na praia. E choripan, que é pão com linguiça para agradar os muitos argentinos que vêm passar o verão. Também tem trilhas, muitas, que acabam sempre em alguma praia bonita. E tem passeios de barco, para pular a caminhada ou chegar em outras pequenas ilhas.

Tem praia que parece estar perdendo seu espaço para o mar que avança e tem areia que se estende até muito depois do mar. Tem lagoas de água calminha para levar as crianças pra nadar e brincar nos pedalinhos com escorregador, que devem ser a coisa mais legal do mundo pras crianças (será que cabe adulto também? 🙂 ) E tem dunas! Aqueles morros de areia branquinha para escorregar, esquiar de bunda ou só apreciar a beleza. Continuar lendo “Floripa: praias, trilhas, lagoas, dunas e vilas”

Como fazer amigos em viagens (para paulistanos)

De onde você é?

– São Paulo.

– São Paulo mesmo, a cidade? Ou é do interiorrr?

– Da capital mesmo.

– Ah.

– Mas minha família veio de Minas…

– Ah que legal!! Que lugar de Minas? Conhece aquela barragem lá de Sobradinho? Já trabalhei lá…

Ele pega o celular, abre as fotos e, enquanto dirige, mostra o lugar onde trabalhou. O detalhe é que era minha primeira vez num mototáxi, ele era o motorista, a estrada era de terra, cheia de pedras e o capacete tava quase voando da minha cabeça de tão frouxo.

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O Kuarup: música, dança, reza e luta (Xingu – parte 4)

No primeiro dia de Kuarup, na aldeia Kamayurá, entrei em uma oca e ouvi algo estranho. Lá dentro, em suas redes, todos recitavam um lamento cantado, como um mantra que se repetia e se transformava num coro. Perguntei para um amigo indígena o que era aquilo e ele me respondeu: eles estão chorando. (O modo de expressar nosso choro é cultural?) O kuarup é um ritual funerário de despedida solene dos mortos do último ano e aquela era uma família de luto. O que eu não sabia, é que pouco tempo depois cantaria como eles.

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A força do jenipapo: preparação para o Kuarup no Xingu (parte 3)

Véspera do Kuarup, os guerreiros se preparam para as lutas. Na beira do rio, arranham braços, pernas, peito e costas. Com um arranhador encravado de dentes de peixe cachorra, pontudos e finos, um amigo arranha o outro (o nome da técnica é escarificação). Desenham riscos contínuos em profundidade e extensão pelos corpos. Passados alguns minutos, enxergamos melhor os traços na pele, agora com contornos vermelhos sangue. Dói muito, mas as caretas dividem espaço com risadas e brincadeira, que para lutar tem que aprender a aguentar a dor. Continuar lendo “A força do jenipapo: preparação para o Kuarup no Xingu (parte 3)”

Conhecendo o Xingu: o que vi e o que não vi (Parte 2)

Em frente à aldeia Amarü passa um rio. De manhazinha, quando o sol ainda está fresco de nascer, uma névoa branca se desprende do rio rumo ao céu. Então o dia parece ainda muito novo, e a vida acabada de começar. Continuar lendo “Conhecendo o Xingu: o que vi e o que não vi (Parte 2)”